Minha mãe tinha muitas regras, criava muitas paranóias e cuidados excessivos, dizia que achava que morreríamos a qualquer momento, temia a morte como quem vive de doença. Mas o que temia era a morte dos outros, da parte dela e por ela, acho que até desejava que partisse o quanto antes. Aparentemente eu não tinha nenhum motivo para estar escrevendo sobre minha mãe, além do motivo de nunca ter escrito a ela, não dessa forma direta indiretamente. Mas é que a garrafa de café que comprei é igual a que tínhamos quando eu era criança, da mesma cor, não tão boa quanto a dela.
Era tão bonita, a minha mãe, e era bonito vê-la despejar café em sua xícara o dia todo. Acordava sentindo o cheiro de café sendo passado, ia pra escola e chegava com cheirinho de almoço.
Minha casa era casa geminada no fundo dos comércios, tinha muita barata mas tinha até quintal concretado e uma área no fundo com o tanque, as plantinhas e pimenteiras que meu pai plantava, tinha cheiro de tabaco que meu pai borrifava nelas. Eu costumava ver minha mãe na boca do fogão parando eventualmente para rir de alguma piada do meu pai, ela se apoiava no vão da porta que dava pra área do fundo, com os cabelos presos se lamentando que os mesmo ficariam marcados, aqueles cabelos pretos e escorridos e seus olhos verdes e miúdos, ora parecia oriental ora parecia indígena mas era só minha mãe de traços diferentes, ninguém se parecia com ela, nem mesmo eu, nem meus irmãos, talvez sua irmã. Mas voltando ao vão da porta em que ela se apoiava com os braços para frente, cabeça inclinada descansando sob ao mãos erguidas, essa era, essa é a visão e lembrança que tenho de mãe, rindo ou lamentando, em seu movimento repetitivo no vão que dava para o fundo enquanto a comida ficava pronta.
Talvez eu evitasse revisitar esse passado, essa casa que muito ficou marcada em pele e na cabeça da criança que fui. Talvez não fosse culpa dela, não acho que tenha sido, exatamente. Eu tão miúda já queria poupar a mãe tão bonita e sofrida que tinha pois quando a via de olhinhos miúdos vermelhos e nariz inchado a chorar pelos cantos escondida, deixava meu coração pequeno, menor do que já era, apesar de gigante. Era muita coisa, eu via muita coisa mas prefiro neste momento me lembrar dela na porta sorrindo ao descansar seus punhos adoentados. Prefiro não lembrar, por hora, dos estresses, das violências, dos meus pesadelos, dos tombos, dos desafetos. Por hora, queria essa lembrança de como era bonito vê-la existir, como era bonita minha mãe e como estávamos inseridas em turbilhões de engrenagens que nos trituravam quase sempre e devo dizer agora depois de tanto tempo que já passou que de coração, eu sinto muito, sinto muito por mim e por ela. Diferentemente, tal como somos na diferença, eu não regresso mais aquela casa. passou.