sexta-feira, 12 de junho de 2026

cálculo mal feito

penso todos os dias
nos tomates que não te dei

por aqui,
eles apodreceram,
não pude imaginar,
mas falhei.

doze de junho

talvez a ideia de perfeição esteja de fato deturpada,
não há clima melhor que esse na cidade,
escuro, frio, levemente seco, levemente úmido,
o barulho da casa de máquinas 
incomoda um pouco menos,
quando o tempo está assim.

tenho uma garrafa de café quentinho, 
tenho um bom livro em mãos, 
com cheiro de páginas semi novas, 
o switch aguardando seu momento, 
ao alcance dos olhos e das vontades,
três felinos de cochilo,
depois dessa manhã que fora um pouco agitada, 
e o homem que me beija e me ama, 
descansa em minha cama. 

nunca imaginei, apesar de sempre pressentir, 
que eu teria o suficiente, 
e um pouco mais, 
para acolher tanto amor,
e deixar transbordar.

acho que isso é perfeição.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

curiosa como Galeano

pagar de volta a cartomante,
para desouvir 
aquilo que não foi se quer perguntado,
aquilo que ninguém sabe,
porque a graça da vida,
é o mistério.

domingo, 24 de maio de 2026

de um outro planeta completamente futurista

 maracujá tem a flor da paixão e significa "alimento que se toma de sorvo"
eu sempre suspeitei que na verdade o maracujá assim como o physalis fossem de terras extraterrestres.

Farto mundo dos fartos

PRECISO falar sobre as pessoas mesquinhas
aqueles que cobram a conta de água mesmo sobrando no bolso
aqueles que a maior dor é a que se paga para o trabalhador trabalhar pra você
aquelas que falam difícil para você não entender seus direitos
aqueles que preferem jogar comida fora à ter que dividir
aqueles que dão maior valor aos bens materiais que qualquer pessoa
aqueles que não pagam a conta mesmo tendo mais que seus companheiros
aqueles que compram do pior para não gastar muito com os outros
aqueles que postam ostentando
aqueles que evitam postar pra fingir que não tem
aqueles que se sentem melhor tendo algo que você não pode ter
aqueles que acham que estão fazendo caridade dando o pão mofado
aqueles que preferem andar com o carro vazio à oferecer carona
aqueles que se debatem para pagar qualquer serviço da PRÓPRIA casa(e ainda fala que tá caro)
aqueles que comem escondidos pra não ter que oferecer
aqueles que passam mal se falar em aumento de salário
aqueles que NÃO fazem seu trabalho mas acha caro o SEU trabalho


Mortos por dentro, mas ainda, infelizmente, ainda não enterrados. 

au hasard balthazar

 Há muito tempo quero te dizer, amigo,
que assisti ao seu filme preferido. 
E odiei,
como pode um jumento
 até mesmo em poesia cinematográfica
 morrer sofrendo? como?

quarta-feira, 20 de maio de 2026

ditos avulsos agora que tenho teclas? III

glorifiquei minhas teclas, meu teclado, 
e ele morreu em minhas mãos.
(igual aquela cadelinha mês passado que morreu por conta de um otário)
(nas minhas mãos ela morreu, abanando o rabo)


o problema mesmo, é que sou irremediavelmente fatalista,
estou, não sou, estou desde que estou no mundo.

somos todos iguais diante ao abandono,
a começar porque nascemos. 

é difícil te explicar que cada par de olho me aprisiona de afeto,
e esses olhos podem ser seus ou de um sapo.

nunca me senti tão privilegiada na vida,
o tempo devora minhas economias mas sobra ao final do dia.

nada como escrever enquanto aprecio meus gatos
(e tem névoa lá fora)

domingo, 17 de maio de 2026

- o que é que esse cara está falando?
o Cortázar.

comida II

cozinho tal qual escrevo, 
sem receita, 
o que eu sinto é o que combina, 
amontoo palavras para desenformar tortas, 
recheadas de tanto. 

comida

 Aquilo que me aproxima do coração das pessoas é com certeza a cozinha delas, não literalmente falando mas a cozinha que as mãos delas executam, ou a que a barriga clama. 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Equação com deus

Na época da ebd, escola bíblica dominical, muito miúda, muito pequena - imagino que era - e a tarefa era pintar o céu e eu não pestanejei, fiz a lua e as estrelas, céu de noite. Talvez o único noturno ali onde tinham muitos sóis e nuvens. A professora olha o desenho e questiona, - o que é isso? Ora eu respondo, - estrelas – estrelas? Ela pergunta, e você já viu alguma estrela azul?

Não pode ser, pensei, errei de céu;

As estrelas não são azuis.

Deus não fez as estrelas azuis. Mas sabe, por exemplo, quantos fios de cabelo tem em cada cabeça de cada ser humano e cada pelo de cada animal sob a Terra, diziam eles. E nenhuma folha caia sem que Ele permitisse.

Era inevitável que eu passasse horas no banho tentando contar meus fios de cabelo antes que Deus calculasse e soubesse antes de mim. Mas mesmo molhado, era impossível e eu falhava toda vez. Não sou Deus e as estrelas nunca foram azuis porque não sou Deus e nunca saberei quantos fios de cabelo eu tenho;

Chão ladrilhado vermelho de cerâmica que eu amava andar de bicicleta, e a goiabeira de galhos finos e firmes, e goiabas, produzia inúmeras goiabas, e era onde me deitava em baixo e imaginava quantas liberações Deus deu para aquela goiabeira do setor Coimbra na quadra da igreja São Judas Tadeu. Eu e minhas horas de sobra para tentar bater a equação de Deus. Mas às vezes nem folha caia, nem folha tinha, falhava toda vez.

Imaginava Deus ocupado, com vários braços, com várias liberações e afazeres eternos, numerosos e infinitos, que até doia minha cabeça só de pensar em quantas cabeças Deus teve que somar para saber quantos fios eu também tenho; Passei a achar que seria um peso não ajudar Ele nessa equação eterna. De tanto martelar comecei a desconfiar secretamente de que Deus não estava muito interessado nessas equações.


...


Muito menos em quantos fios de cabelo eu tinha, ou quais folhas Ele permitiria cair do pé de goiaba do meu setor ou se eu achava que as estrelas eram azuis. Ou se eu me sentia sozinha ou se tinha pavor do que me rodeava ou se eu usava da violência suicida para chegar aos meus limites que ainda não sabia quais eram, nem se ele me protegia assim ou se ele se quer me ouvia ou se quer se seus fies eram mesmo fies assim.

Talvez fosse porque ao orar ajoelhada na cama eu dormia antes do amém. Eu nunca seria ouvida. A equação não fechava. Eu talvez não fosse assim pura e desconfiasse se deus existia realmente.

E todos esses pensamentos já eram pecaminosos. E de equação com deus, saí devendo. 


 a liberdade que é ser desgostada.

desafogo, desato em fogo


pouco mais de um ano atrás
eu desbloqueei uma memória
igual falam os psicanalistas
e quando me veio a mente 
as cenas, os cheiros, as dores, as falas, a confusão...
eu sentia minhas lágrimas como fogo,
como lavas, escorriam sob meu rosto
e me queimavam viva,
em fogo vivo, no meu corpo vivo
que vive,
que lembra,
que sobreviveu. 

me sinto desatar em chamas.
e agora em erupção
não cabia aqui dentro. 

tive que tirar alguns personagens
para que o fogo não me consumisse. 
era como rasgar as vestes

E o que eu sinto hoje é mais parecido com uma metralhadora em estado de graça.
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
metralhadora
metralhadora

graça. 

(metralhar vocês).

em estado de graça. 

ditos avulsos agora que tenho teclas II

 sonhei com um fusca conversível 
e que eu bebia a melhor cerveja zero do mundo;

acordei escutando jazz iraniano 
nunca termino o café antes dele esfriar;

por que a manhã passa mais rápido que a madrugada?
seria porque na madrugada não se faz almoço?

há muito, muito tempo eu não tinha tempo
é uma dádiva poder pensar na vida, com tempo. 

parece que vou lançar um livro,
você me lê na esperança de dizer algo sobre você?
quem são os componentes de um livro de uma pessoa? 

poderia escrever um livro completo
apenas descrevendo os olhos
e os pelos dos meus felinos;

eu cheguei a conclusão do livro,
porque minha busca insaciável
pela descrição do que eu sinto
não existe fora de mim.

minha nova noia são as portas destrancadas em que me apoio. 

e enfim, água de batata sacia meu demônio interno;
tem quem tenha nojo de água de batata.
a batata, logo ela, que é mais limpa que todos nós.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

movimento

vou lançar um livro
e vou abrir um restaurante.

apenas o que me é palpável 
porque eu queria mesmo
era ler toda uma biblioteca 
ver todos os filmes da minha lista
dar aula de comida de plantas para todo um mundo.

apenas o palpável 

cozinhando inhames

leite puro 
como o que o inhame 
me proporciona 
só mesmo 
o leite 
que o meu namorado 
produz. 

terça-feira, 12 de maio de 2026

ditos malditos

aceitei que acometida como sou, 
com inúmeros corações 
Me resta andar descalça e calada 
pelo vale da sombra da morte 
onde temo todo mal 
contra os olhos de todos que amo. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

o perigo dos mares

ele me olha tão bonito,
adoro o som da sua risada gravada.
ele é muito bom em preencher espaços,
esvaziando-os,
e é exímio em abrir qualquer coisa,
potes, portas, latas, paredes, pernas, dedos…
Era evidente que muitos
e muitas
não estariam preparados
para esse esfomeado tubarão 
sedento de ser o que é.
custe o que custar
doa em quem doer.

e ele me olha tão bonito,
enquanto preenche os espaços
e quando abre os caminhos. 
tão bonito.

terça-feira, 5 de maio de 2026

ditos avulsos agora que tenho teclas 1

me organizar nas vontades que são muitas,
entender porque eu estava/estive tão insegura,
mesmo forçando meu próprio caminho no caminho da possível insegurança;

como que eu conseguia escrever tanto sem ter algumas teclas?
não é porque a cozinha é algo tão ancestral que eu precisava ficar tão longe da tecnologia. 

mil reais custa o curso sobre ser resiliente e ter inteligência emocional
como se fosse possível criar um curso tão resiliente assim para ser resiliente.
talvez eu não saiba a fundo o que seja ser resiliente, 
mesmo sendo. 

seria o meu desejo mais obscuro o de ser solitária, ilegal e foragida?
(tentando interpretar meus sonhos)

difícil que ao tentar enxergá-lo como um código
sempre dá erro,
é preciso acessar a placa mãe. 

e vou de sonho em sonho a galope dessas linguagens.



sexta-feira, 24 de abril de 2026

desafogo pt VI

sinto que aquilo que muito me atravessava,
não atravessa mais.
não como antes. 
agora eu me sinto diferente.

super nova

beijo cada lágrima um dia escondida que escorre por seu rosto, te daria a melhor brisa, com a melhor sombra, com a mais frescas das águas, te daria os céus, e lamberia cada gota desse mar salgado que te afogava. Eu lamberia cada ferida em ti depositada. Tudo faria se eu tivesse entendido seu coração mais cedo, agora, agora eu sangro um pouco, por você, por sentir nas minhas tripas o enforcamento que respiravas, te daria porque queria muito ter furado o tempo, mas já que o tempo é agora e é agora que bebo dessa água salgada, é só agora que te daria todos os meus mais lindos dias para você chorar, chorar muito, aliviado por existir sem se afogar. Meu coração está sangrando, como se eu nunca tivesse sentido tanto em todo minha vida, eu explodiria em constelação só para te ver aliviado, meu amor, aliviado de ver que tem uma galáxia inteira por você. E eu estarei lá, ao seu lado, cobrindo nos de mar salgado e tenro, por você, por mim, por nós.

terça-feira, 21 de abril de 2026

sobre partir

o mais difícil de ir
é não ter pra onde voltar.
e o mais difícil de ficar
é o não poder estar.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

atravessamentos

Tentei me lembrar, como se fosse possível eu ter esquecido, do que fazia quando eu me sentia assim, esquisita. Foi então que me lembrei dessa caderneta, da Cícero, que a Ana me presenteou, minha amiga genial. Onde estão meus escritos mais tristes. E obviamente ingerindo algum tipo de álcool porque antes dele, estava doendo algo que eu não sei o que ou o que era, só sei que doía…
Culpei tudo que poderia. 
Nada do que passei foram fantasias, elas foram reais, apesar de me questionar talvez quase todos os dias sobre a veracidade de cada fato. Mas nenhum deles houve roteiro, não houveram letras bonitas, nem trama atraente, nem trilha sonora, nem desfecho bom. Foi um horror.
Você sabe como é ter medo de sentir o próprio cheiro e ter repulsa da probabilidade de fazer atiçar em alguém aquilo que te invada? Acordar no meio da noite e tentar fugir para qualquer lugar longe das mãos que me apalpam enquanto dormia?… todas as noites…
e é por isso o meu sono leve, minha gastrite e meus vômitos. O estado de nervo e de alerta… 
Preferia estar nas trevas onde o mal não me alcançava E eu escrevia mas nunca, nunca sobre aquilo que me atravessava.
que me atravessava. sem linguagem.

terça-feira, 31 de março de 2026

o que me foi levado

talvez tenha me ferido mais do que eu imaginava,
a cozinha que era confortável dizer que era minha enquanto muito se cobrava e muito se fazia ali, eu fazia.
quando na primeira oportunidade de acabar com ela foram lá, mãos que não as minhas desmontar a cozinha que era minha. 
talvez eu não perdoe nunca mais essas pessoas porque elas estão sempre cheias de razão. 
não tenho razão nenhuma para amá-las e todas as razões para desgostar com gosto o desgosto que foi conviver com esse lamento.

não tirei com as mãos mas resolvi com palavras. 

segunda-feira, 30 de março de 2026

depois de amanhã é abril

e se eu não conseguir dar conta de tudo?
do meu gato adoentado,
do cardápio a nascer,
da abóbora alaranjada no mundo das ideias,
da materialização do meu sonho, 
do banco que me cobra todo mês,
do aluguel que vence, 
da sanidade que nem sei…
de bancar meu fumo, meu futuro,
de não ser injusta,
de agir,
de mover,
de sair da paralisia que estou…

e se eu não conseguir,

os dias não esperam, não me esperam
e meu corpo um dia finda. 

e se.

terça-feira, 17 de março de 2026

criando receitas

Eu tenho mais medo de escrever do que cozinhar para o presidente. 
ora, logo a escrita que faz parte de mim desde que aprendi a juntar palavras.
Mas parte de mim já cozinhava arroz e sovava massa. 
e escrevia
secretamente.

pela necessidade da sinceridade da minha escrita, Calina Onça precisa nascer para que as palavras de leopardo não se enganem e nem se engasguem mais.

sexta-feira, 6 de março de 2026

dar nomes

demorei a me dar conta que o fascismo morava comigo,
dormia debaixo do mesmo teto,
pregava o mesmo que eu condenava,

sai às ruas pra gritar contra as amarras e injustiças desse sistema.
sai vendada porque não entendia o que acontecia dentro de casa, 
de tão perto cega fui em não ver que em todas as pistas estava ali 
um laboratório de fascistas em formação.
E eu na rua gritando polícia fascista,
com tantos fascistas ao lado
aproveitando do meu corpo e da minha mente. 

militantes

 era quase natural dentro da militância, ser chamada de anarco individualista, primeiro por não me alimentar de animais e segundo por culpa da Emma Goldman. Mas veja só, há quem ainda está descobrindo em pleno dois mil de vinte seis que ações individuais fazem sociedades menos doentias ou ao contrário. 

domingo, 1 de março de 2026

não sei se andorinha ou peixe

Eu me achava muito corajosa, mas eu tenho uma amiga. 
Na verdade, eu tenho o privilégio de poder ver com meus próprios olhos os passos corajosos e um tanto solitários dela. É que ela mergulha como se tivesse vindo do ventre do oceano, e ela mergulha em suas decisões como quem já tivesse passado por aqui e sabe exatamente onde tudo isso vai dar. 
E ela sempre deixa espaço para eu entrar. 
E eu entrei na sua vida porque eu me achava corajosa. 
É porque eu ainda não a conhecia. 
E ela que saiu de um lugar tão tão distante do mar que se quer quem a deu à luz ousaria mergulhar, navegar. 
Karina, ela inspira a vida por seus poros. 
E um dia estarei mergulhando ao seu lado tão profundamente que nem saberemos o nome de todos os seres abissais que se aproximarem de nós. 
Obrigada, pelo gole generoso de coragem e gentileza. 
Faz sentido seguir aonde seus pés caminham e aonde as braçadas de seus braços nadam.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

ditos malditos pt VI

parece impossível encarar as crianças 
sem pensar nos olhos 
das minhas crianças que perdi, 
incluindo eu.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

escritos perdidos encontrados pt I

a segunda taça sempre quebra
não sei porque diabos
se a culpa é minha em insistir ou a culpa é de quem ou se existe um culpado 
ou se é apenas para nao usar taça
ou se é apenas para evitar o brinde
ou se as ilusões que se cria a cada saúde desejada a cada taça renovada, a cada olhar entrelaçado e em breve embriagado e a saude que vira saudade que derruba o vinho e tudo mais vira fumaça
e a taça que segue cheia mas sozinha.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

diário contra o alcoolismo pt i bebendo


o problema de quando eu sento para escrever 
é que quero por ao copo vazio
a bebida vermelha docemente amarga 
não por ser difícil escrever
mas por ser difícil lembrar 
assim tão sobriamente 
que é tudo tão cruelmente real.

desafogo pt III

(silêncio)

 em estaDo de desafogamento

(silêncio)

desafogo pt II

e desafogar…

que tem
um tanto de fogo

e pouco 
de mar.


mas basta amar
pra se queimar
no mar 
e se afogar
no fogo.

(…)

eu sigo e morro?
ou eu sigo ou morro?
ou sigo morrendo?
ou morro seguindo?

ou sigo, persigo e mato?




desafogo pt I

e depois de perder tanto
o que restou
é um oceano inteiro 
e infinito.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

lembrei como respira

a cada hora que passa,
sinto abandonar meu leito tempestuoso 
e sinto deleitando enfim em berço esplêndido.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

sobrando

passei algumas horas cozinhando o feijão preto que sobrou no demolho que fiz ontem daquela feijoada, 
sobrou, sobrou demolho,
e apesar de hoje ser o primeiro dia do adeus, minha cozinha ainda com suas curvas familiares me deixou confortável, confortavelmente sentindo o cheiro que saia do chiado da panela que funcionava sob pressão. 
chiiiiii chiiiava muito, a panela sob pressão, 
e para além do feijão que sobrava,
horas depois quem sobrava era eu. 
pouco tempo depois me senti arrancada, aquilo que eu ainda não tinha acreditado que tinha,
e capaz fui de entender o quanto sou capaz e também ingênua, mesmo com a minha idade.
nada é meu, nunca me pertencerá aquilo que não me deixar respirar, não adianta toda maquiagem viva como uma planta para que se filtre o que é mal. 
e quem dita o mal? 
por que me entristece tanto saber que o bem é cruel e desleal.

os dias estão estranhos e cheiro de feijão cozinhando nunca será mais o mesmo. 
não restou nem aqueles grãos que eu mesma catei e cozinhei.
nem eles.
passou por entre meus dedos e foram parar sabe-se lá onde.


goiânia, dia 02 do mês dois, segunda feira.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

atenta e forte

não tinha ainda me ocorrido de errar o conta gotas,
assim como havia esquecido de maneira repentina e fugaz, que nada há garantia de nada, nem da gota, nem da conta, nem do acerto.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

redigir para digerir []

se eu fosse redigir tudo quanto tem me atravessado poderia sair um livro, 
por ora confuso, 
por hora,
mas
que em breve,
traduzido. 


mas 
nunca 
justificado.

sábado, 3 de janeiro de 2026

gozo do mar

O descanso ele recompensa a mente cansada e o coração melancólico com a fome das vontades e a ousadia dos prazeres. 
Deleita no gozo e respira profundo, ainda virão os ventos do mar pra embaralhar seus cabelos e refrescar sua nuca enquanto molha os pés.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

ao relento

é difícil quando penso na vida e levo as coisas como se merecimento fizesse de fato algum sentido, como se eu ter passado por tanta coisa me faz quase que automaticamente merecedora de todo amor e paciência do mundo e ao quebrar essa expectativa ingênua de merecimento por não ter merecido tudo que me aconteceu, isso me deixa em pedaços independente da data, das vontades e de quem me acompanha e enfim, completa os cacos da minha insignificância e me sinto ao relento como se a vida tivesse me parido e excomungado como um saco de lixo arremessado ao léu.