sexta-feira, 15 de maio de 2026

Equação com deus

Na época da ebd, escola bíblica dominical, muito miúda, muito pequena - imagino que era - e a tarefa era pintar o céu e eu não pestanejei, fiz a lua e as estrelas, céu de noite. Talvez o único noturno ali onde tinham muitos sóis e nuvens. A professora olha o desenho e questiona, - o que é isso? Ora eu respondo, - estrelas – estrelas? Ela pergunta, e você já viu alguma estrela azul?

Não pode ser, pensei, errei de céu;

As estrelas não são azuis.

Deus não fez as estrelas azuis. Mas sabe, por exemplo, quantos fios de cabelo tem em cada cabeça de cada ser humano e cada pelo de cada animal sob a Terra, diziam eles. E nenhuma folha caia sem que Ele permitisse.

Era inevitável que eu passasse horas no banho tentando contar meus fios de cabelo antes que Deus calculasse e soubesse antes de mim. Mas mesmo molhado, era impossível e eu falhava toda vez. Não sou Deus e as estrelas nunca foram azuis porque não sou Deus e nunca saberei quantos fios de cabelo eu tenho;

Chão ladrilhado vermelho de cerâmica que eu amava andar de bicicleta, e a goiabeira de galhos finos e firmes, e goiabas, produzia inúmeras goiabas, e era onde me deitava em baixo e imaginava quantas liberações Deus deu para aquela goiabeira do setor Coimbra na quadra da igreja São Judas Tadeu. Eu e minhas horas de sobra para tentar bater a equação de Deus. Mas às vezes nem folha caia, nem folha tinha, falhava toda vez.

Imaginava Deus ocupado, com vários braços, com várias liberações e afazeres eternos, numerosos e infinitos, que até doia minha cabeça só de pensar em quantas cabeças Deus teve que somar para saber quantos fios eu também tenho; Passei a achar que seria um peso não ajudar Ele nessa equação eterna. De tanto martelar comecei a desconfiar secretamente de que Deus não estava muito interessado nessas equações.


...


Muito menos em quantos fios de cabelo eu tinha, ou quais folhas Ele permitiria cair do pé de goiaba do meu setor ou se eu achava que as estrelas eram azuis. Ou se eu me sentia sozinha ou se tinha pavor do que me rodeava ou se eu usava da violência suicida para chegar aos meus limites que ainda não sabia quais eram, nem se ele me protegia assim ou se ele se quer me ouvia ou se quer se seus fies eram mesmo fies assim.

Talvez fosse porque ao orar ajoelhada na cama eu dormia antes do amém. Eu nunca seria ouvida. A equação não fechava. Eu talvez não fosse assim pura e desconfiasse se deus existia realmente.

E todos esses pensamentos já eram pecaminosos. E de equação com deus, saí devendo. 


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