domingo, 24 de maio de 2026

de um outro planeta completamente futurista

 maracujá tem a flor da paixão e significa "alimento que se toma de sorvo"
eu sempre suspeitei que na verdade o maracujá assim como o physalis fossem de terras extraterrestres.

Farto mundo dos fartos

PRECISO falar sobre as pessoas mesquinhas
aqueles que cobram a conta de água mesmo sobrando no bolso
aqueles que a maior dor é a que se paga para o trabalhador trabalhar pra você
aquelas que falam difícil para você não entender seus direitos
aqueles que preferem jogar comida fora à ter que dividir
aqueles que dão maior valor aos bens materiais que qualquer pessoa
aqueles que não pagam a conta mesmo tendo mais que seus companheiros
aqueles que compram do pior para não gastar muito com os outros
aqueles que postam ostentando
aqueles que evitam postar pra fingir que não tem
aqueles que se sentem melhor tendo algo que você não pode ter
aqueles que acham que estão fazendo caridade dando o pão mofado
aqueles que preferem andar com o carro vazio à oferecer carona
aqueles que se debatem para pagar qualquer serviço da PRÓPRIA casa(e ainda fala que tá caro)
aqueles que comem escondidos pra não ter que oferecer
aqueles que passam mal se falar em aumento de salário
aqueles que NÃO fazem seu trabalho mas acha caro o SEU trabalho


Mortos por dentro, mas ainda, infelizmente, ainda não enterrados. 

au hasard balthazar

 Há muito tempo quero te dizer, amigo,
que assisti ao seu filme preferido. 
E odiei,
como pode um jumento
 até mesmo em poesia cinematográfica
 morrer sofrendo? como?

quarta-feira, 20 de maio de 2026

ditos avulsos agora que tenho teclas? III

glorifiquei minhas teclas, meu teclado, 
e ele morreu em minhas mãos.
(igual aquela cadelinha mês passado que morreu por conta de um otário)
(nas minhas mãos ela morreu, abanando o rabo)


o problema mesmo, é que sou irremediavelmente fatalista,
estou, não sou, estou desde que estou no mundo.

somos todos iguais diante ao abandono,
a começar porque nascemos. 

é difícil te explicar que cada par de olho me aprisiona de afeto,
e esses olhos podem ser seus ou de um sapo.

nunca me senti tão privilegiada na vida,
o tempo devora minhas economias mas sobra ao final do dia.

nada como escrever enquanto aprecio meus gatos
(e tem névoa lá fora)

domingo, 17 de maio de 2026

- o que é que esse cara está falando?
o Cortázar.

comida II

cozinho tal qual escrevo, 
sem receita, 
o que eu sinto é o que combina, 
amontoo palavras para desenformar tortas, 
recheadas de tanto. 

comida

 Aquilo que me aproxima do coração das pessoas é com certeza a cozinha delas, não literalmente falando mas a cozinha que as mãos delas executam, ou a que a barriga clama. 

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Equação com deus

Na época da ebd, escola bíblica dominical, muito miúda, muito pequena - imagino que era - e a tarefa era pintar o céu e eu não pestanejei, fiz a lua e as estrelas, céu de noite. Talvez o único noturno ali onde tinham muitos sóis e nuvens. A professora olha o desenho e questiona, - o que é isso? Ora eu respondo, - estrelas – estrelas? Ela pergunta, e você já viu alguma estrela azul?

Não pode ser, pensei, errei de céu;

As estrelas não são azuis.

Deus não fez as estrelas azuis. Mas sabe, por exemplo, quantos fios de cabelo tem em cada cabeça de cada ser humano e cada pelo de cada animal sob a Terra, diziam eles. E nenhuma folha caia sem que Ele permitisse.

Era inevitável que eu passasse horas no banho tentando contar meus fios de cabelo antes que Deus calculasse e soubesse antes de mim. Mas mesmo molhado, era impossível e eu falhava toda vez. Não sou Deus e as estrelas nunca foram azuis porque não sou Deus e nunca saberei quantos fios de cabelo eu tenho;

Chão ladrilhado vermelho de cerâmica que eu amava andar de bicicleta, e a goiabeira de galhos finos e firmes, e goiabas, produzia inúmeras goiabas, e era onde me deitava em baixo e imaginava quantas liberações Deus deu para aquela goiabeira do setor Coimbra na quadra da igreja São Judas Tadeu. Eu e minhas horas de sobra para tentar bater a equação de Deus. Mas às vezes nem folha caia, nem folha tinha, falhava toda vez.

Imaginava Deus ocupado, com vários braços, com várias liberações e afazeres eternos, numerosos e infinitos, que até doia minha cabeça só de pensar em quantas cabeças Deus teve que somar para saber quantos fios eu também tenho; Passei a achar que seria um peso não ajudar Ele nessa equação eterna. De tanto martelar comecei a desconfiar secretamente de que Deus não estava muito interessado nessas equações.


...


Muito menos em quantos fios de cabelo eu tinha, ou quais folhas Ele permitiria cair do pé de goiaba do meu setor ou se eu achava que as estrelas eram azuis. Ou se eu me sentia sozinha ou se tinha pavor do que me rodeava ou se eu usava da violência suicida para chegar aos meus limites que ainda não sabia quais eram, nem se ele me protegia assim ou se ele se quer me ouvia ou se quer se seus fies eram mesmo fies assim.

Talvez fosse porque ao orar ajoelhada na cama eu dormia antes do amém. Eu nunca seria ouvida. A equação não fechava. Eu talvez não fosse assim pura e desconfiasse se deus existia realmente.

E todos esses pensamentos já eram pecaminosos. E de equação com deus, saí devendo. 


 a liberdade que é ser desgostada.

desafogo, desato em fogo


pouco mais de um ano atrás
eu desbloqueei uma memória
igual falam os psicanalistas
e quando me veio a mente 
as cenas, os cheiros, as dores, as falas, a confusão...
eu sentia minhas lágrimas como fogo,
como lavas, escorriam sob meu rosto
e me queimavam viva,
em fogo vivo, no meu corpo vivo
que vive,
que lembra,
que sobreviveu. 

me sinto desatar em chamas.
e agora em erupção
não cabia aqui dentro. 

tive que tirar alguns personagens
para que o fogo não me consumisse. 
era como rasgar as vestes

E o que eu sinto hoje é mais parecido com uma metralhadora em estado de graça.
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
'metralhadora em estado de graça'
metralhadora
metralhadora

graça. 

(metralhar vocês).

em estado de graça. 

ditos avulsos agora que tenho teclas II

 sonhei com um fusca conversível 
e que eu bebia a melhor cerveja zero do mundo;

acordei escutando jazz iraniano 
nunca termino o café antes dele esfriar;

por que a manhã passa mais rápido que a madrugada?
seria porque na madrugada não se faz almoço?

há muito, muito tempo eu não tinha tempo
é uma dádiva poder pensar na vida, com tempo. 

parece que vou lançar um livro,
você me lê na esperança de dizer algo sobre você?
quem são os componentes de um livro de uma pessoa? 

poderia escrever um livro completo
apenas descrevendo os olhos
e os pelos dos meus felinos;

eu cheguei a conclusão do livro,
porque minha busca insaciável
pela descrição do que eu sinto
não existe fora de mim.

minha nova noia são as portas destrancadas em que me apoio. 

e enfim, água de batata sacia meu demônio interno;
tem quem tenha nojo de água de batata.
a batata, logo ela, que é mais limpa que todos nós.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

movimento

vou lançar um livro
e vou abrir um restaurante.

apenas o que me é palpável 
porque eu queria mesmo
era ler toda uma biblioteca 
ver todos os filmes da minha lista
dar aula de comida de plantas para todo um mundo.

apenas o palpável 

cozinhando inhames

leite puro 
como o que o inhame 
me proporciona 
só mesmo 
o leite 
que o meu namorado 
produz. 

terça-feira, 12 de maio de 2026

ditos malditos

aceitei que acometida como sou, 
com inúmeros corações 
Me resta andar descalça e calada 
pelo vale da sombra da morte 
onde temo todo mal 
contra os olhos de todos que amo. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

o perigo dos mares

ele me olha tão bonito,
adoro o som da sua risada gravada.
ele é muito bom em preencher espaços,
esvaziando-os,
e é exímio em abrir qualquer coisa,
potes, portas, latas, paredes, pernas, dedos…
Era evidente que muitos
e muitas
não estariam preparados
para esse esfomeado tubarão 
sedento de ser o que é.
custe o que custar
doa em quem doer.

e ele me olha tão bonito,
enquanto preenche os espaços
e quando abre os caminhos. 
tão bonito.

terça-feira, 5 de maio de 2026

ditos avulsos agora que tenho teclas 1

me organizar nas vontades que são muitas,
entender porque eu estava/estive tão insegura,
mesmo forçando meu próprio caminho no caminho da possível insegurança;

como que eu conseguia escrever tanto sem ter algumas teclas?
não é porque a cozinha é algo tão ancestral que eu precisava ficar tão longe da tecnologia. 

mil reais custa o curso sobre ser resiliente e ter inteligência emocional
como se fosse possível criar um curso tão resiliente assim para ser resiliente.
talvez eu não saiba a fundo o que seja ser resiliente, 
mesmo sendo. 

seria o meu desejo mais obscuro o de ser solitária, ilegal e foragida?
(tentando interpretar meus sonhos)

difícil que ao tentar enxergá-lo como um código
sempre dá erro,
é preciso acessar a placa mãe. 

e vou de sonho em sonho a galope dessas linguagens.