passei algumas horas cozinhando o feijão preto que sobrou no demolho que fiz ontem daquela feijoada,
sobrou, sobrou demolho,
e apesar de hoje ser o primeiro dia do adeus, minha cozinha ainda com suas curvas familiares me deixou confortável, confortavelmente sentindo o cheiro que saia do chiado da panela que funcionava sob pressão.
chiiiiii chiiiava muito, a panela sob pressão,
e para além do feijão que sobrava,
horas depois quem sobrava era eu.
pouco tempo depois me senti arrancada, aquilo que eu ainda não tinha acreditado que tinha,
e capaz fui de entender o quanto sou capaz e também ingênua, mesmo com a minha idade.
nada é meu, nunca me pertencerá aquilo que não me deixar respirar, não adianta toda maquiagem viva como uma planta para que se filtre o que é mal.
e quem dita o mal?
por que me entristece tanto saber que o bem é cruel e desleal.
os dias estão estranhos e cheiro de feijão cozinhando nunca será mais o mesmo.
não restou nem aqueles grãos que eu mesma catei e cozinhei.
nem eles.
passou por entre meus dedos e foram parar sabe-se lá onde.
goiânia, dia 02 do mês dois, segunda feira.