sexta-feira, 31 de outubro de 2025

linguagem de desafeto

dei-te o direito de falar comigo,
porque eu sou incapaz de devolver o mesmo 
desamor que me foi dado em agosto no dia 29.

o mesmo desamor que me foi dado
e que me foi dado

todo esse tempo.

mas não digo mais palavra,
da mesma forma 
que elas não foram ditas

todo esse tempo

e de pensar em agosto,
esqueci que hoje é outubro
e do dia 28 ao 31
a única forma de sobreviver 
era sumindo, extinguindo. 

desse silêncio todo
que até mesma cobrada fui
o que eu guardo é apenas horror,
e não adianta mais me questionar
de por que sou assim. 


sábado, 11 de outubro de 2025

olhai os mortos na orla, nunca chegaram em alto mar

 (I)
há um mar sagrado em que me deleito mas que não entro
 há um mar salgado em que chorei
(II)
e em lágrimas 
transbordadas do peito que a ressaca dissolveu na praia, 
para consolo não me assassinou na orla, mas me deitei.
(III)
avistei qualquer coisa remando ao fundo,
deleitada no esforço de não morrer na beira, nem entrar profundo, pro fundo.
(IV)
ao que com esforço do cavalo que puxa a carroça contra a agua salgada, me joguei em alto mar, 
e ele se movimenta tranquilo passado o tsunami, o náufrago e a sensação de que não se sabe o que tem depois do horizonte e a partir dali, nunca fomos.
(V)
tudo em plenos pulmões e calmaria mansa das ondas que nauseam, anunciando que o novo vem chegando, e cada miligrama de água é novidade para os segundos que insistem em não parar de contar e rodar e passar e salgar cada gota que ainda engolirei, de choro e de chuva e de mar. Mergulhada na mansidão dos novos dias.
(VI)
o mar não me cabe em quatro paredes.
e nem em cada grão de areia que me prende os pés na praia. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

não existiria

 apesar da ideal ideia de que a cenoura poderia nunca ter sido arrancada, essa só seria cenoura se arrancada fosse. 


cenoura

Hoje diante da minha incapacidade com tudo,
fui incapaz até do que sou capaz quando estou incapacitada, como por exemplo colocar uma música, prestar atenção ao podcast, terminar a limpeza que iniciei, pensar em me alimentar ou se quer conseguir encher com água a minha garrafa, hoje incapaz até de trabalhar na minha flor, hoje perdida no início, vi o dia se iniciar e se findar, mesmo que eu tenha caminhado no escuro, correndo como se alguém me seguisse e quisesse finalizar essa vida, vida essa que não sei porque diabos seria assim tão preciosa ao ponto de lamentar que alguém a tire. e eu aqui nascida gente, mais perdida que o ciclista que entra na marginal por engano. Nascida gente mas mais próxima de um tubérculo arrancado ainda jovem do que com gente. 
 Ou simplesmente, tenho, preciso de toda essa perda perdida que me encontro? que estado perdida não significa que esteja perdida mas que a perda é de outra coisa, como da roupa que está pequena e que não cabe mais, não é? e talvez toda essa incapacidade seja porque de tão capaz preciso esperar com paciência que as resoluções se assentem e que resultará naquilo que me movimenta, que se movimenta sem se lamentar. em estado de escolha e realização, paciência na perda.

‘Primeiro eu fui enterrada viva. Depois, o céu desabou.’

cozinhando palavras, criando receitas

  eu tenho mais medo de escrever do que cozinhar para o presidente.  ora, logo a escrita que faz parte de mim desde que aprendi a juntar as ...